sexta-feira, 21 de agosto de 2026

As Três Vidas, de João Tordo: Um Jogo Psicológico Perturbador e Inquietante

 


Ao fim da primeira meia dúzia de capítulos não consegui saber bem o porquê, mas entendi logo que a escrita de João Tordo é diferente. Muito diferente. É fácil de ler, mas não tão fácil de compreender; sentimos um mistério escondido a cada parágrafo.

Importante referir que sou iniciante neste autor e seis capítulos não chegam para retirar conclusões profundas, por isso decidi ir registando a minha opinião conforme a leitura ia avançando.

O Diário de Uma Leitura Inquietante

A maneira como o autor constrói a narrativa deste livro é muitíssimo interessante: é como se fosse um diário que o narrador conta na primeira pessoa. Há duas coisas nesta história que nos deixam inquietos desde muito cedo: uma é o nome do próprio narrador e a outra é o verdadeiro negócio de Millhouse Pascal. E mais não vos vou adiantar!

  • Página 130: O livro está cada vez mais inquietante. Num momento parece que tudo começa a fazer sentido e, logo a seguir, tudo se baralha outra vez. Jogo psicológico é a expressão que me ocorre dizer nesta fase da leitura, vinda de um autor que me parece muitíssimo sofisticado.

  • Página 164: Neste momento ainda não consegui entender se todo o relato do narrador aconteceu mesmo na sua vida ou se tudo não passa de um sonho (ou pesadelo).

De Portugal a Nova Iorque

Fazemos aqui uma viagem pelo Portugal profundo do final da década de 70 e início da década de 80. O autor faz uma descrição dos cenários sem exageros, mas suficiente para nos sentirmos completamente dentro da história. É o retrato de um Portugal recém-saído de uma ditadura, onde ainda era possível viver de maneira anónima, como se vivia na Quinta do Tempo.

De repente, e quase sem darmos por isso, embarcamos numa viagem a Nova Iorque. Uma América do início dos anos 80 tão diferente do que é hoje, mas também tão distante do Portugal da época. Em determinado momento retive uma frase que exemplifica bem esse choque cultural: “Passou uma rapariga com uns walkie talkies, nunca tinha visto nada assim”.

Quando o livro deixa de estar focado apenas no narrador a contar a sua própria história e passa para o próprio Millhouse Pascal a narrar a sua vida, todas as peças começam finalmente a encaixar e tudo ganha outro sentido.

A Condição Humana e a Saúde Mental

Chegado ao final da extensa primeira parte do livro, João Tordo faz-nos pensar sobre a nossa própria humanidade:

  • Quem nunca esteve perante a indecisão de tomar uma decisão?

  • Quem nunca teve a vontade de deixar tudo para trás?

  • Quem nunca se sentiu perdido e sem saber o que fazer?

  • Quem nunca tentou enganar-se a si próprio, arranjando uma qualquer desculpa esfarrapada?

Devorei a segunda parte — bem mais curta que a primeira — de forma rápida. Ao contrário da primeira (onde encontramos traços da nossa condição humana e coisas que nos podem acontecer no dia a dia), nesta segunda parte deparamo-nos com um ser que passa por profundas mazelas mentais. Algo que, felizmente, não acontece à maioria de nós… espero eu!

Na terceira e quarta parte continuamos no mesmo ritmo. O nosso narrador segue na busca de si próprio e de um rumo para a sua vida.

As Minhas Considerações Finais

Embora seja uma obra de ficção, fica sempre a ideia no ar de que há algo de verídico neste relato — como se fosse algo contado por alguém que se cruzou na vida real do autor. Mas, suposições à parte, este livro é a prova de quão marcantes (positiva ou negativamente) podem ser as pessoas e as experiências que cruzamos em determinado momento do nosso caminho.

Numa altura em que se fala tanto de saúde mental, João Tordo explora muitíssimo bem esse tema, mantendo um jogo psicológico do princípio ao fim. Como leitor, fui obrigado a procurar sempre algo de real e muito de mim mesmo nestas páginas. Já diz o ditado que "de poeta e de louco, todos temos um pouco" — acho que, no fundo, todos somos um pouco como o narrador desta história, em busca do nosso próprio caminho.

Recomendação: Gostei bastante do livro! Aconselho vivamente a quem lê com muita regularidade. Para quem lê apenas um ou dois livros por ano, na minha opinião, talvez não seja o livro ideal.

Nota: 3.8 / 5 ⭐️

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